Lesões de acidente vascular cerebral hemisférico prejudicam a função diafragmática contralateral: Um estudo comparativo transversal baseado em ultrassom com controles saudáveis
Palavras-chave:
AVC; diafragma; ultrassonografia; função respiratória; hemiplegia; reabilitação; controles saudáveis.Resumo
Introdução: O diafragma é o principal músculo respiratório que é responsável por cerca de 75% do fluxo de ar para os pulmões, separando fisicamente a cavidade torácica da cavidade abdominal. O diafragma apresenta diversas funções além da ventilatória, incluindo a estabilização do tronco e o controle do equilíbrio. Esta dupla função do diafragma (ventilação e postura) é realizada simultaneamente e é independente da fase da respiração, o que sugere que a resposta pode ser pré-programada pelo sistema nervoso central. A ventilação é ativada voluntariamente através da via corticoespinhal ou automaticamente através da via bulboespinhal. Existem hipóteses que a hemiplegia causada por uma lesão superior ao tronco cerebral prejudicará o movimento diafragmático. Objetivo: Investigar se as lesões hemisféricas por acidente vascular cerebral (AVC) afetam a função diafragmática contralateral e a capacidade respiratória, utilizando uma avaliação ultrassonográfica abrangente em comparação com controles saudáveis. Desenho: Estudo observacional transversal com controles saudáveis pareados. Participantes: Quarenta e dois pacientes com AVC hemisférico (27 isquêmicos, 15 hemorrágicos; média de idade 66,43 ± 6,41 anos; 23 mulheres) e 42 controles saudáveis pareados por idade e sexo (média de idade 65,15 ±5,62 anos; 21 mulheres). Principais Medidas de Resultado: Espirometria (CVF, VEF1, VEF1/CVF), pressão inspiratória máxima (PImáx) e avaliação ultrassonográfica diafragmática abrangente, incluindo espessura em repouso e inspiração máxima, fração de espessamento (FEDI) e excursão em repouso e inspiração máxima. Resultados: Pacientes com AVC demonstraram comprometimento respiratório significativo em comparação com controles saudáveis, com PImáx (62,83 ± 5,24 vs 78,65 ± 7,62 cmH²O, p < 0,001), CVF (2,12±0,42 vs 3,28 ±0,65 L, p < 0,001) reduzidas e razão VEF1/CVF alterada (104,64 ± 4,22 vs 86,80 ± 6,40% do previsto, p < 0,01). Dentro do grupo de AVC, apesar das diferenças nas limitações funcionais entre os tipos de AVC isquêmico e hemorrágico, não foram encontradas diferenças significativas entre os mecanismos de AVC nas variáveis respiratórias ou diafragmáticas (p > 0,05). No entanto, foram consistentemente observados comprometimentos contralaterais significativos em comparação com o lado ipsilateral: espessura diafragmática reduzida em repouso (-0,11cm, p < 0,001, Cohen’s d = 0,58) e inspiração máxima (-0,14 cm, p < 0,001,d = 0,77), fração de espessamento diminuída (-10,12%, p = 0,004, d = 0,51) e excursão limitada em repouso (-0,64 cm, p < 0,001, d = 0,85) e inspiração máxima (-2,07 cm, p < 0,001, d = 0,72). Curiosamente, o hemidiafragma ipsilateral mostrou função preservada, semelhante à dos controles saudáveis, na maioria dos parâmetros.
Conclusões: Lesões hemisféricas por AVC comprometem significativamente a função diafragmática contralateral, independentemente do tipo de AVC, com tamanhos de efeito moderados a grandes, indicando relevância clínica substancial. O hemidiafragma ipsilateral mantém uma função quase normal, sugerindo mecanismos de compensação eficazes. Esses achados apoiam a base neuroanatômica das vias de controle córtico-diafragmático cruzadas e destacam a importância da avaliação respiratória direcionada e da reabilitação com foco no hemidiafragma afetado em pacientes com AVC.
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