Viabilidade e segurança da neuromodulação cerebeloespinhal combinada ao exercício na ataxia espinocerebelar tipo 3: Um protocolo de 20 sessões
Palavras-chave:
ataxia espinocerebelar, estimulação elétrica trans-espinhal, marcha, controle postural, mobilidadeResumo
As ataxias espinocerebelares (SCA – do inglês spinocerebellar ataxia) são um grupo de doenças degenerativas progressivas que resultam em distúrbios da marcha e do equilíbrio, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Apesar da gravidade dos sintomas, as opções terapêuticas disponíveis ainda são limitadas. Nesse contexto, a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) tem se destacado como uma abordagem potencialmente eficaz, graças à sua capacidade de modular a plasticidade neural e promover melhorias na função motora. A aplicação da ETCC anódica sobre o cerebelo tem sido explorada como uma estratégia para compensar déficits funcionais, com o objetivo de melhorar o equilíbrio e a marcha. Protocolos que combinam a ETCC com exercícios motores têm mostrado resultados promissores, indicando benefícios na coordenação motora e na estabilidade postural. Porém, algumas questões continuam em aberto. Objetivo: Investigar i) se caraterísticas específicas em indivíduos com SCA podem prever melhora no controle postural e na marcha após 20 sessões consecutivas de ETCC;
(ii) a viabilidade, segurança e aceitabilidade da administração de mais do que as típicas cinco a dez sessões de ETCC, aplicadas juntamente com exercícios progressivamente desafiantes; (iii) os potenciais benefícios desta intervenção combinada nas pontuações clínicas, no controle postural e na mobilidade num ambulatório de saúde pública e convidando a população em geral com SCA; e (iv) se os benefícios se mantêm um mês após a conclusão do protocolo. Métodos: Trata-se de um ensaio clínico pragmático. Participaram 39 indivíduos com SCA3. A ETCC trans-espinhal foi aplicada a uma intensidade de 2mA, com o eletrodo anódico sobre a região cerebelar e o catódico sobre a medula espinhal mais precisamente em T11. A duração total das sessões foi de 20min. Os participantes receberam simultaneamente 20 minutos de ETCC e um protocolo de exercícios de marcha e equilíbrio diariamente com dificuldades progressivas. A intervenção foi aplicada por 4 semanas nos dias de semana, totalizando 20 sessões. Todos os participantes receberam estimulação real. A gravidade da ataxia (Escala para avaliação e graduação de ataxia - SARA), o controle postural (Escala de Equilíbrio de Berg - EEB) e a mobilidade (Timed-Up-and-Go - TUG) foram avaliados antes, após as 20 sessões e um mês depois do fim da intervenção. Para análise estatística, foi utilizada a abordagem de intenção de tratar, com imputação múltipla para lidar com dados ausentes (8,3%). As diferenças individuais padronizadas (SID) foram calculadas e comparadas com zero para verificar mudanças significativas após a intervenção. As análises foram realizadas em Python 3.11.7. O limiar estatístico foi fixado em 5%. Resultados e discussão: A taxa de comparecimento foi 97,31%. Algumas quedas ocorreram, mas sem consequências adversas. A intervenção promoveu reduções significativas nos escores da SARA (p < 0,001), aumentos nos escores do BBS (p = 0,005) e reduções no tempo do TUG (p = 0,011) comparados ao valor de referência zero. As melhoras foram mantidas após um mês (p > 0,171 para comparação de SID pós-intervenção com follow-up). Conclusão: A intervenção aqui proposta foi viável, aceita e segura e promoveu melhora da gravidade da ataxia, da mobilidade e do equilíbrio. Estudos controlados precisam ser conduzidos para confirmar estes achados.
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